Família endêmica da região Neotropical, reúne aves terrestres de aspecto galináceo, embora sejam parentes mais próximos das emas (Rheidae). A família é encontrada do México à Patagônia, com mais de 90% das espécies estando presentes no Brasil. A maior parte das espécies ocorre na Bacia Amazônica.
Caracterizam-se pelos dedos livres, três anteriores e um posterior, têm pernas de comprimento médio e são desprovidas de cauda. Há espécies de pequeno, médio e grande porte, todas de hábito terrestre. Os tinamídeos têm plumagem de colorido pouco chamativo, em tons de marrom, pardo e cinza, que lhes proporciona camuflagem em meio à vegetação herbácea e arbustiva. A família abrange os macucos, inhambus, perdizes e codornas neotropicais. As codornas e perdizes nativas do Brasil não devem ser confundidas com as codornas e perdizes do Velho Mundo (Europa, Ásia e África), que são aves galiformes da família Phasianidae.
Muitas espécies vivem em áreas campestres ou semiabertas, mas a maioria tem hábitos florestais, percorrendo o sub-bosque das florestas e cerrados. São aves discretas e ariscas, que vivem ocultas no emaranhado de vegetação e que aparentemente não voam com facilidade. Preferem agachar-se quando algo se aproxima e só voam quando já quase atingidas. Também podem disfarçar sua presença ficando de pé e imóveis, com a cabeça para cima, aparentando valer-se do efeito de camuflagem de sua coloração. A habilidade de voo de um tinamídeo é surpreendentemente limitada: em áreas arborizadas, podem colidir com troncos e galhos. Correm curtas distâncias em velocidade, mas logo se cansam, talvez em função do pequeno tamanho de pulmões e coração; os tinamídeos apresentam, proporcionalmente, o menor coração entre todas as aves. Emitem cantos melancólicos, que podem ser ouvidos a grandes distâncias. O timbre do canto de certas espécies dificulta a localização da direção de onde o som provém.
Alimentam-se de bagas, frutas caídas, grãos e sementes duras. Procuram pequenos artrópodes e caramujos que se escondem no tapete de folhagem apodrecida, viram folhas e paus podres com o bico à procura de alimento, mas jamais remexendo o solo com os pés como fazem os galináceos. As espécies campestres catam carrapatos nos pastos e se aproveitam da movimentação do gado para apanhar insetos. Algumas espécies visitam plantações.
Uma peculiaridade dessa família é que são os machos os responsáveis por chocar os ovos e cuidar dos filhotes. O macho faz um ninho numa simples depressão no solo com folhas secas ou capim, onde são depositados ovos de aspecto perolado e de colorido exuberante. As espécies do gênero Tinamus botam ovos de cor verde-turquesa e as espécies dos demais gêneros botam ovos de coloração vinácea, rosada ou achocolatada. Enquanto o macho está chocando, a fêmea pode ter “aventuras amorosas” com outros machos. Em algumas espécies, a fêmea retorna ao ninho para dar uma segunda postura, depois de a primeira ter eclodido. Nesse caso, o macho volta à incubação. Os filhotes são nidífugos, saindo do ninho logo após o nascimento e já seguindo o pai. Se um dos filhotes não conseguir romper a casca do ovo a tempo, ficará abandonado no ninho e consequentemente morrerá.
Os tinamideos historicamente foram e ainda são uma fonte importante de proteinas às populações humanas nativas e rurais de todo o Brasil, sendo um recurso natural importante e muito abundante em algumas regiões, mesmo atualmente. Esse consumo deve ser visto da mesma forma positiva que a pesca e o extrativismo vegetal de subsistência, e não com um viés piegas e pouco racional.
Os tinamídeos estão entre as aves mais visadas por caçadores no Brasil, que apreciam sua carne excelente e o desafio esportivo. Na caça são utilizados “pios de madeira” ou apitos que imitam os cantos das espécies. Na época do acasalamento, ao piar uma fêmea ou macho, geralmente são atraidos para o abate. Outra técnica de caça consiste no uso de armadilhas, para as quais as aves são atraídas por cevas previamente mantidas. Perdizes e codornas são abatidas geralmente no tiro ao voo, sendo localizadas no campo por cães perdigueiros amestrados. Outra grave ameaça aos tinamídeos é o uso de agrotóxicos em cultivos (por exemplo, milho e soja), que causa grande mortandade a essas aves.
Devido à caça ilegal, ao uso de pesticidas e à destruição das vegetações nativas, várias espécies correm risco de extinção.